No evento de 15 de setembro de 2020, no anúncio do seu novo smartwatch, a Apple escolheu como um dos seus cases contar o relato breve de um espanhol cego que podia, segundo o apresentador do evento, “uses his Watch for everything from speaking the time to reminding him what his appointments are” (“usa seu relógio para tudo desde falar as horas até lembrá-lo de quais são seus compromissos”). Na primeira vez que ouvi, fiquei receosa de que leigos achassem que cegos só conseguiam consultar as horas e lembrar de seus compromissos usando um Apple Watch. Porém, refletindo sobre o posicionamento da marca e o evento, percebi que era apenas uma jogada de marketing para criar um vínculo com seus clientes cegos, um certo tipo de identidade.

Meses depois desse evento, especificamente em janeiro de 2021, surgiu a oportunidade de usar o famigerado Apple Watch serie 5 40mm.

Eu já usava o Garmin Fenix 5S para monitorar minhas corridas e acabei acostumando com outras funcionalidades, como monitoramento de sono, de batimentos cardíacos e de passos dados. Como ele em si não possuía leitor de tela, para verificar esses dados eu olhava o aplicativo, dentro do celular.

Fui resistente pela troca do Garmin pelo Apple Watch. Não tinha certeza de que teria as informações de forma minimamente acessível no gadget da Apple, apesar de que o aplicativo do Garmin não era tão bom assim (e apesar também de saber que o relógio da Apple possuía leitor de telas próprio). Algo que sempre me incomodou na aplicação do Garmin era a demora para sincronização. Não era raro abrir o aplicativo, aguardar cinco minutos e nada acontecer. Por isso (e por outros motivos), decidi arriscar e tentar utilizar o relógio da Apple.

Na minha primeira semana com o Apple Watch achei muito estranho suas configurações. Ele possui uma tela principal na qual posso escolher o layout e, dependendo deste, a quantidade de informações que podem aparecer varia. Não sei para quem enxerga, mas para quem não enxerga a escolha do layout não é muito intuitiva, pois o nome dos mostradores são Astronomia, Caleidoscópio, Explorador, Fogo e Água, entre outras nomenclaturas abstratas. Escolhi o Infográfico Modular (porque possibilita seis informações em tela) e os dados apresentados foram, nessa ordem: temperatura, data, batimentos, lembretes, acompanhamento de ciclo e atividade.

Nos primeiros dias surgiu outro problema com o qual precisei me adaptar: assim como no iOS 14, o WatcHOS 7 demonstrou ter alguns problemas de foco do VoiceOver, tais como não ler todas as notificações da central. Outro problema muito recorrente é a mudança de tela: não é raro, por exemplo, colocar a senha para desbloquear o Apple Watch, visivelmente a tela estar desbloqueada porém o VoiceOver continuar lendo o teclado de números para digitar a senha. Esses problemas resolvi apenas pela navegação exploratória.

Nas duas ou três primeiras semanas, era estranho ter uma voz no meu pulso lendo minhas notificações, pedindo para que eu ficasse em pé e anunciando meus batimentos. Para quem enxerga, o movimento de virar o pulso e dar uma olhada é minimamente discreto; para mim, que precisava ouvi-lo, o movimento era de aproximá-lo do meu ouvido, o que pode ser engraçado para quem olha de fora.
Não deixava o volume muito alto com medo de que fosse lido alguma notificação imprópria, além do receio de incomodar as pessoas ao redor. Devido a isso e pelo consequente desconforto em consultá-lo, acabei não o utilizando muito. Só tempos depois fui descobrir que o VoiceOver não saía lendo minhas notificações assim queestas chegavam – eu precisava dar um toque na tela para ser lida.

Até que teve algo que mudou tudo: minha primeira corrida com o Apple Watch. Quando corria com o Garmin, para saber meus dados (frequência cardíaca mínima e máxima, distância total, elevação, calorias gastas, etc) precisava voltar para casa e aguardar o aplicativo sincronizar com o relógio. Com o Apple Watch, a consulta era imediata, logo depois de pausar ou finalizar a corrida. Soma-se a isso o fato de que, durante o treino, podia consultar a distância percorrida. Com o Garmin apenas tinha acesso ao completar um quilômetro, que é quando o relógio vibrava para me avisar. Apesar disso ser configurável (o relógio pode me avisar toda vez que completo 500m, por exemplo), poder consultar no momento que eu quero facilita muito. Facilita, por exemplo, entrar em estado de flow.

Essa experiência foi o ponto final na minha relação com o Garmin. Passei a deixar o volume do Apple Watch bem mais alto para tornar mais confortável minha consulta a ele. Inclusive me acostumei – olhem só – a usá-lo para consultar as horas.

Atualmente, ainda acho ruim fazer o movimento de rotor em uma tela tão pequena (preciso desse movimento para ajustar o volume e a velocidade da voz, entre outras coisas). Também tive que me habituar a colocá-lo para carregar todos os dias. Ainda não tenho uma rotina para isso, pois quando vou correr ou caminhar a bateria acaba mais rápido. Em dias em que não o uso muito, ele dura por volta de um dia.

O Apple Watch me trouxe outros benefícios que não imaginava, como me desconectar mais do meu celular. Quando estou trabalhando, às vezes algumas notícias chegam via WhatsApp (seja porque a internet de alguém caiu, seja alguma notícia enviada para toda a equipe via grupo). Com o Apple Watch tenho a certeza de que nenhuma notificação vai passar despercebida. Quando eu não usava smartwatches, às vezes eu esquecia o celular no silencioso e outras vezes não ouvia as notificações chegando. Outro ponto que me ajudou é quando saio de casa e deixo o celular na bolsa; não preciso me preocupar de consultá-lo a todo momento ou deixar o volume do toque muito alto para garantir que irei escutar.

Também comecei a monitorar minhas caminhadas. Para chegar ao parque onde corro, por exemplo, são três quilômetros que agora são contabilizados como tempo de exercício e calorias gastas.

Vale a pena comprar? Pesquisando os preços não o encontrei por menos de R$ 3.500 (o valor varia de acordo com o tamanho da tela e pulseira que vem junto). Sinceramente, não o compraria por esse valor, a não ser que eu estivesse muito dedicada nos meus treinos e estivesse empenhada em melhorar meu tempo e minha performance.


2 comentários

Irene Passos Santos · 21 de março de 2021 às 21:00

Amei o post, porém fiquei com uma dúvida: é possível conectar o AppleWatch a algum fone Bluetooth para que as notificações sejam ouvidas apenas pelo fone?

    Marina Yonashiro · 27 de março de 2021 às 13:10

    Sim! Dá pra conectar fones Bluetooth no Apple Watch sim. Acabei nem fazendo essa observação no texto porque, pelo menos para mim, o grande diferencial do Apple Watch é ser portátil. Se sempre que formos usá-lo precisarmos conectar um fone sem fio, acho que perde um pouco a razão de ser do gadget. Mas você fez uma ótima observação 😀

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